A Fantástica Fantasia

Tudo é uma fantasia se a realidade não faz sentido. Assim, seriam os nossos sonhos um vislumbre de como tudo poderia ter sido se não estivéssemos entorpecidos?

Entorpecidos pela busca eterna de uma felicidade externa. Uma alegria que depende dos outros e de como eles são para nós. Reconhecimento, amor, compaixão, amizade, empatia. Você sacrificaria a única coisa que é sua – e somente sua – para viver flutuando em um oceano que não é seu?

Um oceano onde é preciso estar na superfície para respirar. Boiando, olhando para o céu, sentindo as ondas sacudirem levemente o seu corpo, enquanto tudo que está abaixo não importa realmente. Nunca importou, pois não era algo realmente seu.

E agora?

Não há mais o que fazer. Não há mais o que ser dito. É uma épica que se aproxima do instrumental final. Gritou, mas não foi ouvido. Chorou, mas não choraram junto. O desespero toma conta conforme o fim se anuncia.

O fim onde ficará claro que tristeza e felicidade são faces diferentes da mesma moeda e tudo que sempre importou foi a verdade que Deus mostrou.

Deus é tímido. Deus não gosta de fazer discursos e explicar Sua obra. As respostas estão todas prontas da maneira mais perfeita que Ele, e somente Ele, poderia ter feito.

E assim, enquanto estivermos entorpecidos esperando encontrar uma felicidade máxima, perfeita e irretocável, em oceanos de terceiros, em fantasias onde somos o que não queremos ser, na esperança de um gesto empático de quem não tem empatia, estaremos fadados à nossa destruição.

O Último Trem Para o Paraíso

Esse sentimento é meu e somente meu. Já tentei compartilhar, mas ninguém entende, ninguém o quer. Já tentei procurar a origem no que me rodeia, mas não a encontrei. É algo de mim e para mim.

Então, cansado, certa noite fiz as malas. Na verdade, uma mala. Bem pequena, com poucos e preciosos objetos nela: um caderno, uma caneta, uma pedra, meu amuleto, três mudas de roupa e uma certa quantia de dinheiro. Dirigi-me à estação de trem no centro e decidi pegar um trem. Era noite, muito frio, perto do Natal, e todos os trens já estavam lotados. Exceto um. E a passagem custava exatamente a quantia de dinheiro que eu tinha.

Disseram-me que era o último trem para o Paraíso e nele embarquei. Viajando por horas, dias e semanas em uma noite ártica de inverno, pude observar as estrelas, as pessoas e o frio. Em certo momento, o Frio passou a falar comigo, me explicando que ele é o estado natural do Universo e das coisas, que nele há a paz eterna e da sua relação com o Caos.

Nessa viagem sem fim pela noite eterna, perguntei-me sobre os outros trens ao Paraíso que eu havia deixado de pegar e o que estive fazendo enquanto eles passavam. Passariam eles pelo mesmo caminho? Poderia observar exatamente a mesma lua por trás do mesmo monte naquele ângulo perfeito que eu estava?

Então, certo dia, um sujeito totalmente vestido de preto, com um capuz que cobria rosto indistinguível perante a pouca luz, sentou-se à minha frente e como se soubesse da angústia que eu tinha, disse-me:

– Não há trem perdido se você não tem a passagem para nele entrar. Não há trem perdido se não há vaga para você nele.

Àquela altura, já sabia que nada era normal nessa viagem. Estando no último trem para o Paraíso, tudo é natural. A tristeza mais profunda, a alegria mais radiante e o ser misterioso que senta diante de mim. Questionei-o:

– Não peguei o trem muito tarde?

– Tudo o que fez até hoje te permitiu estar aqui. A viagem é longa, é bela. É preciso estar na escuridão para ver o brilho da Lua iluminando o monte.

Levantou-se e foi embora. Eu sei quem ele é e sei que voltará mais vezes. A viagem é longa, muito longa, mas não tenho pressa para chegar ao fim.

PRÓXIMO TEXTO DA SÉRIE: Mãe Solteira – Parte 1: 1994

A Arte É Você

Manchinha e Quadro

Na arte você nunca está só e nunca está incompleto. A arte, seja a música, a pintura, o desenho ou escrita, sempre te completa. A arte te entende e às vezes mais do que você mesmo. Uma música inspiradora, um quadro que aparece nos seus sonhos, um texto que ecoa as palavras da sua alma.

Por isso eu gosto de escrever. Aqui eu sou completo. Aqui eu sou o que quero ser. Mas mais do que isso, aqui eu sou aquilo que realmente sou e posso voar tão leve quanto em um dos meus mais belos sonhos.

Poderia a vida ser assim? Eu não sei. Mas quando escrevo, ela é.

Descansar Não é Perda de Tempo

Uma lição muito importante que aprendi é que se você está sem inspiração ou procurando alguma resposta, o tempo que você gasta com lazer ou dormindo não é tempo perdido.

Muitas vezes a solução para algum problema vem quando você está distraído, com a cabeça leve, pensando em outra coisa. Com a inspiração é a mesma coisa. Às vezes aquele estágio pré-sono, quando não estamos mais completamente lúcidos, pode dar ideias muito boas. Os sonhos também têm um alto grau de importância, não só no sentido de reorganizar as ideias e servirem de válvula de escape, como também de poderem ser o próprio esboço de uma resposta.

Todas boas ideias que tive vieram de momentos em que eu estava com a cabeça leve. Penso que só assim consigo ouvir a mim e até mesmo a Deus.

O Ponto de Virada

Um dos grandes questionamentos da minha vida é tentar descobrir quem eu sou. Na adolescência e no começo da vida adulta isso era menos importante. Estava seguindo, vivendo a vida e descobrindo as coisas sem muita pressa. Durante todos esses anos, em tudo que fiz, sempre houve a dúvida se eu estava seguindo o caminho certo, o caminho que me levaria a ser o homem que sempre quis ser. Ironicamente eu nunca soube como era esse homem, mas sabia – e sei – que vou saber como é quando chegar lá.

Essa jornada que me trouxe até aqui e que me fez sentar novamente na frente do computador para escrever, mais uma vez, sobre exatamente as mesmas dúvidas que eu tenho desde sempre, construiu o que eu sou. Apesar disso, eu não sei o que sou e o que foi construído!

Para tentar me entender, vejo tudo que eu fiz na vida e lembro com muito afeto da primeira versão do Abacate Doce, lá em 2001. Tratava-se de um site sobre “coisas que eu gostava”, com enfoque em informática. Era para ser “meu cantinho”, “meu reduto”. Conforme os anos se passaram e eventos foram acontecendo, fui me moldando, tirando textos do ar e mudando o site até que, por fim, sobrou o que você pode ver hoje: um simples blog com alguns textos recentes.

É um dos grandes arrependimentos que tenho. Deveria ter continuado. Só que se eu não tivesse feito isso, não seria quem eu sou hoje, não teria feito outras coisas e construído este Ser Atual. Então concluo que tudo foi como deveria ser e não como eu acho que deveria ter sido.

Agora, para de hoje em diante, reunindo tudo que aprendi, construí e acrescentei ao meu Ser, pergunto a Deus, alguém que tanto critiquei e questionei no passado: qual o próximo passo que o Senhor quer que eu siga? A resposta já está dada e está no homem que quero ser.