Para Sempre

Este texto faz parte da série “O Último Trem Para o Paraíso”. Clique aqui para ler todos textos em ordem cronológica.

Você vive com a sensação de ser um intruso no mundo? Essa é uma sensação diferente da sensação de não pertencer a este mundo, pois apesar de não pertencer, você ainda pode ser um visitante ilustre e muito bem recebido. A sensação que tenho é de realmente ser um intruso, alguém que não deveria estar aqui e não é bem-vindo. Isso se reflete em toda minha vida, em tudo que faço, em tudo que fiz. Por isso parti de onde estava em direção a qualquer lugar. Entrei em qualquer trem, sem me preocupar para onde ia nem com o que encontraria.

– Somos todos rejeitados pelo simples fato de existirmos. Em algum momento da vida, acabamos sendo rejeitados sem termos feito nada. Somos o frio e o escuro: passivos, porém incômodos. Você também se sente assim?

– Sim, mas nunca consegui verbalizar. Passei a vida tentando fazer algo, procurando uma resposta, até que hoje, aqui neste trem, finalmente percebi que não há como um pássaro voar na água.

– Há quanto tempo você está aqui?

– Não sei, perdi a noção de tempo.

– É o que acontece quando nos encontramos. Não “nós” no sentido de “eu e você”, mas sim “nós” no sentido de “você com você” e de “eu com eu mesmo”. Chegou a falar com o Rei?

– Não, mas sei que há um Rei aqui.

– Impossível. Você deve ter falado com ele, mas não percebeu. Todos falaram com o Rei, assim como todos falam com Deus.

– Ué… não percebi ninguém que se apresentasse como Rei ou que parecesse ser um.

– Nesse lugar onde estamos, ninguém mais se parece com o que achamos que é. Até chegarmos aqui, passamos uma vida inteira em uma luta constante entre o que somos, o que pensamos, o que gostamos e o que o mundo em que vivemos aceita que sejamos. Então cada vez mais vamos escondendo partes de nós, para o bem e para o mal, colocando mais máscaras e camadas para esconder nossa essência. Ficamos sufocados para nos proteger do frio. Cada um que passou por isso, um dia entra nesse Trem e descobre que não precisa mais fingir e nem se proteger do frio. O Rei tira todas suas vestimentas de cashmere, suas joias de ouro e sua coroa, sua pose, seu título e então, pela primeira vez na vida, começa a ouvir a si mesmo e a Deus. Podendo ser o que ele realmente é acaba parecendo para nós, que não estamos com os olhos acostumados com o escuro, um mero louco com falas perturbadas. Porém se prestar bastante atenção, poderá ouvir a voz de um verdadeiro Rei.

– Talvez por isso ninguém se importe com a gente, nem mesmo aqueles que mais amamos, pois não somos algo verdadeiro.

– Não sei. Acho que não é isso. Acho que é difícil se importar com quem não é bem-vindo. Por mais que elas tentem, a gente sabe a verdade, sabe que somos um incômodo para elas. Não é por isso que estamos nesse trem, afinal?

– Um incômodo que elas nunca ousaram tentar entender. Empatia realmente é muito difícil, pois você precisa ter a habilidade de largar o que é e conseguir se colocar no lugar da outra pessoa e para isso precisa ignorar todos os apetrechos e penduricalhos da personalidade que ela precisa vestir para viver nesse mundo.

Eu espero que essa viagem continue para sempre. O escuro, o frio, o barulho do trem sobre os trilhos e todas essas pessoas com quem conversei e que, pela primeira vez, me fizeram eu me sentir aceito. Sem julgamentos, sem questionamentos fúteis, sabendo que eu comprei uma passagem exatamente como elas e como elas eu sou. Dizem que esse Trem vai para o Paraíso e é bem provável que lá eu volte a ser o incômodo que sempre fui. Não sei se é algo que devo me preocupar, pois nada pode ser melhor e maior do que a Eternidade em um Trem viajando para sempre.

Malucos Sem Faixa

É engraçado como nas férias do karatê eu comecei a perceber alguns ensinamentos latentes das aulas do sansei, não necessariamente relacionados à luta em si. Por exemplo, o grau de exigência que ele tem com os faixas preta é diferente do grau de exigência que ele tem com nós, faixas “coloridas”. Isso pode parecer a coisa mais óbvia do mundo, mas tente perceber o que está por trás disso: ele não nos desmotiva por não conseguirmos executar o golpe com a perfeição de um faixa preta e ele exige de nós até onde ele sabe que conseguimos chegar no momento, para no futuro termos a possibilidade de chegar até a faixa preta. Algum movimento que era aceitável antes, agora ele já cobra que corrijamos conforme vamos avançando nos treinos. Se ele tivesse exigido lá nas primeiras aulas, quando eu era só um maluco sem kimono, o que ele exige hoje, eu teria desistido e achado totalmente impossível ter chegado até onde consegui chegar.

E aí eu pergunto: o mundo é assim em relação a nós ou exige que sejamos sempre faixas preta?

Quando começamos um projeto qualquer, quantos desgraçados vêm tentar nos desmotivar e quantos vêm incentivar?

Acho que o mundo é composto de malucos sem kimono e empatia.