Bilhões de Deus

Estima-se que o Universo tenha cerca de 13.8 bilhões de anos. Se fôssemos representar esses anos desenhando uma linha que tivesse 1 cm para cada ano, ou seja, 13.8 bilhões de centímetros, faríamos uma linha de 138 mil quilômetros, o suficiente para dar cerca de 3 voltas e meia ao redor da Terra (no equador). Se fôssemos contar todos esses anos, contando 1 ano por segundo, demoraríamos aproximadamente 438 anos para contar. Isso dá uma dimensão da idade estimada do Universo.

Big-bang, 13.8 bilhões de anos depois e aqui estamos. Na imensidão do cosmos e em todos bilhões de anos de sua existência, esse momento em que escrevo jamais se repetirá. Todos esses bilhões de anos para finalmente chegarmos aqui, para eu poder escrever e você poder ler.

Na infância parece que o tempo passa muito devagar e quando chegamos à vida adulta, os anos parecem meses. Passa tudo muito rápido. Uma vez me disseram que isso acontecia porque há muito mais novidades nas vidas das crianças e por isso os dias parecem muito diferentes uns dos outros, enquanto que para os adultos os dias são praticamente iguais. Acreditei nisso durante muito tempo.

Hoje penso que a grande diferença é que as crianças não se preocupam com o passado e com o futuro. Elas estão super fixas no presente, pois não há muito passado para elas e o futuro é no máximo qual será a brincadeira de amanhã com os amigos.

Nós adultos remoemos o passado. Temos nostalgia. Experimente explicar a nostalgia para uma criança de 8 ou 9 anos. Simplesmente não fará sentido:

                – Filho, nostalgia é um tipo de saudade de um passado em que vivemos, onde tudo parece que era muito melhor do que é hoje e gostaríamos de voltar para lá, mesmo que na verdade não seja.

                – Hum… como na época dos dinossauros? Eu tenho nostalgia. Queria voltar para época dos dinossauros!

O futuro é uma incerteza constante para todos, mas os adultos são os únicos que o vivem. Imagine que você esteja em um emprego que não gosta, mas esteja estudando para ir para um emprego melhor. Durante esse tempo, você não tem certeza que terá êxito nessa mudança de trabalho. Então, está vivendo uma incerteza do futuro. “Será que isso dará certo?”. A dúvida acerca do futuro se transforma no seu presente e você passa a viver algo que não sabe se acontecerá. As crianças normalmente não fazem isso. Elas não planejam sua vida adulta e sequer têm dúvidas sobre “o que fazer da vida”.

E essa é a grande diferença que faz as crianças terem a sensação de que o tempo passa muito mais lentamente: elas vivem somente o presente. Elas vivem somente um tempo por vez. Elas andam 1 centímetro por dia.

13.8 bilhões de anos para criar seres mais ou menos racionais que tentam burlar as leis da física estando em dois tempos no mesmo momento. Só Deus explica.

Somos palavras não inventadas

O que somos? Para onde vamos? De onde viemos e o que estamos fazendo aqui? As religiões tentam explicar, os filósofos tentam entender. No nosso mais profundo íntimo, ao lado dos sentimentos mais primitivos, há essa necessidade de voltarmos para nossa origem, de entendermos o que somos. O que é esse sentimento? Já questionei muito. Nunca tive uma resposta.

É algo maior do que as palavras podem descrever? Está em mim? Se me volto a mim para busca-lo, invariavelmente questiono: o que eu sou? E todos nós temos a mesma dúvida. E nenhum de nós tem a resposta.

O que eu sou?

Para “eu” me ver, preciso antes me despir de tudo que existe e não é “eu”: roupas, pessoas queridas, bens materiais, família, trabalho, corpo físico, lazer, música. Em um silêncio profundo, em uma meditação profunda, eu me encontro. E descubro o que sou. Mas não posso descrever, pois nenhuma descrição com palavras é perfeita.

Sabe a sensação de caminhar na beira do mar e sentir as ondas molhando os pés? Você pode descrever essa sensação de infinitas formas. Todas estarão corretas, mas nenhuma será a verdadeira forma. Nenhuma fará o leitor ou ouvinte entender exatamente como é esse sentimento. E ele poderá ter a mesma experiência e descrever de outra forma igualmente válida.

OQueSou

O que eu sou? Quem eu sou? Arte by Jolussa.

São todos desenhos da verdade absoluta de como é esse sentimento. Nossa linguagem escrita e falada não permite uma descrição universal e verdadeira de como algo trivial realmente é. Pois então, como descrever uma existência espiritual?

Eu poderia pensar no que sou e sentir. As pessoas sentem Deus mas não conseguem explicar. Se forem explicar, precisariam fazer analogias, ou seja, desenhos linguísticos para tentar resumir algo extremamente grande. Essas pessoas o fazem quando falam de Deus e quem não sente Deus não entende. Pudera! Jamais entenderão.

E aí voltamos a minha questão inicial: o que somos? Se você pode sentir o que você é, pode descrever? Faltará palavras. Faltará adjetivos.

O que nos resta é apenas ser. É sentar diante da imensidão do que nós verdadeiramente somos se conseguirmos sentir isso. E apenas sentir, apenas saber, enquanto não inventam palavras para nos descrever.

Nosso Momento Eterno

Você já pensou que tudo que conhecemos, desde as estrelas até nossos próprios corpos, um dia deixará de existir? Tudo que você faz, tudo que você constrói, um dia desaparecerá. A consciência desse fato pode nos fazer pensar que talvez nossa existência não valha a pena. Por outro lado, será que esse não é um dos vários segredos da vida?

Se seus acertos e glórias serão esquecidos no tempo, seus erros e derrotas também serão. Nada é eterno, mas os momentos serão eternamente únicos e jamais repetidos!

Talvez o presente realmente seja um “presente”, pois nos permite viver um momento de cada vez. Nesse momento, você e eu carregamos a soma de tudo que acertamos e erramos em nossas vidas. O momento que irá um dia se perder no tempo, você o está vivendo. Você é único nessa dimensão e local do tempo. É uma dádiva tão grande, algo tão exclusivo que pode-se dizer que é um segredo entre você e Deus. Só Ele sabe e sente exatamente o que você sente.

E divagando mais, imagine aquele instante em que você leu a linha anterior do texto. Ele já não existe mais! Surgiu e desapareceu! Você não pode parar para apreciar um instante exato. Quando começamos a pensar, nossa forma temporal de ser e existir já nos transporta pelo rio do tempo para o próximo instante.

De instante em instante, temos momentos. É difícil capturar um instante. Você vive momentos. O momento em que se sentou com uma xícara de café quente para me ler, o momento em que sentiu a água quente lavar seu corpo, o momento em que saciou sua fome, o momento em que estava fazendo algo com a pessoa amada, o momento que ganhou consciência e nasceu.

Cânion Itaimbezinho

Bonito, imponente e feito em milhões de anos. Mas não é eterno.

E por isso que acho que isso é um dos segredos da vida. O pequeno Universo infinito que existe em nós construindo uma história única e exclusiva onde somente Ele, Deus, é o outro telespectador.

Aí a questão é o que fazemos com esses momentos e se nós realmente entendemos o que eles significam. O fluxo do mundo e da sociedade moderna nos empurra fortemente para um caminho de velocidade descontrolada, ansiedade, pressões e o pior de tudo: uma autocobrança para sermos o que não somos. Coma rápido, faça rápido, resolva rápido, durma pouco, trabalhe muito, pense rápido e seja como os outros querem ser.

E aí você entra nessa “pilha” e passa a ser apenas um galho quebrado de uma árvore flutuando rio abaixo no tempo. Ou usando outra analogia, um papagaio social: todos fazem, todos correm, você repete e não sabe por quê.

E perde os momentos, que são seu segredo com Deus. E se distancia de você mesmo e do que você é. Pior ainda: daquilo que você pode ser. Por que? Porque você estava ocupado e com pressa demais para chegar em algum lugar que nem é para onde você queria ir.

Respire. Relaxe. Siga seu fluxo e o fluxo do seu Universo. Deus compartilha esse segredo com você em todos os momentos da sua vida. Ouça-o.

Leve como o ar

Às vezes eu sento diante de uma tela em branco no computador, com o sentimento de que devo procurar palavras para explicar algo que está no ar. É leve e, por isso, denso. Pensamentos e conexões com a vida, as pessoas, o infinito. Ideias, criaturas e criações que buscam sua própria descrição para saberem o que são.

Parece que tudo que há neste Universo está procurando uma resposta e que a resposta é a mesma para todas as questões.

Vida, luz, amor, respeito, conhecimento e humildade são trilhas que levam ao que procuramos. A resposta, porém, está dentro de nós, em cada espaço vazio entre nossos átomos, em nossa alma e também na consciência material.

O simples fato de existirmos e nos questionarmos já me faz pensar que talvez sejamos a própria resposta:

  1. Se do Nada viemos e para o Nada vamos, não deixamos de ser o Nada em nenhum momento, apenas assumimos uma forma diferente durante sua jornada;
  1. Se do Nada viemos e consciência criamos, talvez a própria criação de nossa consciência seja a conexão que faltava para chegarmos a compreensão plena, restando a nós continuarmos a jornada;
  1. E/ou se nada pode surgir do Nada e tudo sempre existiu, somos uma “apenas” uma existência em mutação constante que encontrará em si sua própria explicação, talvez não individualmente, mas como parte do Todo Eterno.

Nós: todas as criaturas e criações do Universo. Leve como o ar, denso como somos.