A Fantástica Fantasia

Tudo é uma fantasia se a realidade não faz sentido. Assim, seriam os nossos sonhos um vislumbre de como tudo poderia ter sido se não estivéssemos entorpecidos?

Entorpecidos pela busca eterna de uma felicidade externa. Uma alegria que depende dos outros e de como eles são para nós. Reconhecimento, amor, compaixão, amizade, empatia. Você sacrificaria a única coisa que é sua – e somente sua – para viver flutuando em um oceano que não é seu?

Um oceano onde é preciso estar na superfície para respirar. Boiando, olhando para o céu, sentindo as ondas sacudirem levemente o seu corpo, enquanto tudo que está abaixo não importa realmente. Nunca importou, pois não era algo realmente seu.

E agora?

Não há mais o que fazer. Não há mais o que ser dito. É uma épica que se aproxima do instrumental final. Gritou, mas não foi ouvido. Chorou, mas não choraram junto. O desespero toma conta conforme o fim se anuncia.

O fim onde ficará claro que tristeza e felicidade são faces diferentes da mesma moeda e tudo que sempre importou foi a verdade que Deus mostrou.

Deus é tímido. Deus não gosta de fazer discursos e explicar Sua obra. As respostas estão todas prontas da maneira mais perfeita que Ele, e somente Ele, poderia ter feito.

E assim, enquanto estivermos entorpecidos esperando encontrar uma felicidade máxima, perfeita e irretocável, em oceanos de terceiros, em fantasias onde somos o que não queremos ser, na esperança de um gesto empático de quem não tem empatia, estaremos fadados à nossa destruição.

Ecos

– Por que choras?

– Sinto-me só, Mestre.

– Como pode sentires só se aqui estou?

– Você não está aqui exatamente. Posso senti-la, mas não posso vê-la.

– E isso me torna menos presente?

– Sim, ao passo que não consigo ver tuas expressões, ver o que fazes por mim e nem me sentir confortado pela tua compreensão.

– Pois teu coração também não está visível, embora saiba que ali está e possa senti-lo.

– É diferente. Ainda me sinto só. Mestre, minha solidão seria um dos pesos que eu deva carregar? Ou talvez, uma escolha minha para poder me manter desconectado deste mundo quando assim necessário? Eu não gosto de me sentir só. Não parece ser algo que eu escolhi.

– Não te esqueças que teu “Eu” mais puro e superior é maior do que esse “eu” reduzido que aqui senta diante de mim e me questiona. Converso com um ser semiconsciente. Plenamente consciente, tua sensação e sentimentos poderiam ser outros.

– Mas se a maior parte do tempo eu estou nesse estado, semiconsciente, se minha vida é assim, o que posso fazer?

– Buscar a consciência maior! Com ela poderás ver tudo que está ao teu redor. Toda a luz e a todos que te rodeiam.

– E os medos em minha alma?

– Tu os verás e assim os compreenderá. É como alguém batendo na porta. Tu tens medo, mas assim que abrires a porta verás que se trata de apenas de um mensageiro lhe dando boas novas. Ou dizendo-lhe que tu fostes aceito na Universidade, algo que é bom, mas também lhe trará uma nova quantidade de trabalho.

“Veja, filho, os medos são inseguranças. Tua sensação de incompreensão persuadirá a vontade da alma de desistir da existência plena condicional. Tua compreensão revelará a verdadeira face dos fatos e a profundidade da energia que permeia cada átomo do teu corpo. A Verdade. A Verdade não é uma revelação escrita de um segredo de escola. A Verdade é simplesmente a pura existência. O simples e complexo ato de existir e ser. Teus sonhos todos são manifestações da tua alma gritando para te mostrar os teus medos. Precisas acordar nos teus sonhos para assim compreender. Precisas buscar a compreensão tua antes de mais nada. Precisa ser e estar. Precisa ser e sentir. A verdade só se manifestará assim.

Sempre tu me dizias que “tudo é energia”. Eis o momento de crer e pôr em prática. Eis a hora de buscar essa compreensão e revelar a tua verdadeira identidade.”

Um, de diversos diálogos que ele teve com sua Mestre e outros colegas. Diálogos que ecoavam em sua cabeça como um grito em uma caverna vazia, até serem totalmente absorvidos pelas paredes e se dissiparem no nada. São os ecos, entretanto, que acabavam revelando-se em certos momentos da vida e brotando na beira de um rio na forma de flor. Uma flor. Uma simples e pura flor, com suas pétalas violetas com bordas brancas. Molhada pelo orvalho e iluminada pelo sol. Uma flor que brotava pelos ecos e ali se manifestava.

Ele sabia, cada vez que olhava para aquela flor – não para uma em específica, mas para cada flor que na beira do rio nascia – que eram os ecos de sua Mestre que afloravam. Era uma beleza imensurável, porém, simultaneamente, a dolorosa verdade de saber: os ecos.

Ecos do Infinito

A compreensão nunca foi o forte dele. Seus pensamentos e sentimentos ecoavam nos muros que ele havia construído para se proteger. Eram muros sólidos em uma realidade onde o intocável, sadicamente, acaricia com a mão dourada enquanto sufoca com a mão negra.

“Como posso me sentir acompanhado quando tudo que vejo são muros? ” – Perguntava. A Mestre, não respondia. Evasiva, sorria e comentava sobre a beleza do céu acima de suas cabeças. Ele, às vezes aceitava. Outras vezes, deitava e chorava. Tudo era ruído.

Até que certa vez, sua Mestre entendeu que deveria responder, mesmo sem ele ter perguntado. A pergunta não veio, mas no olhar sabiam do que se tratava. Sentou ao lado das flores e assim disse:

– Estes muros são tua criação para tentar prender os ruídos da caverna que te recusas a ouvir. O Infinito quando tudo criou, produziu um som. O som, bate nestas paredes e volta a ti. Ouve este som em forma de eco, e não ouves as falas de tua caverna. Mesmeriza-te com a beleza das flores e entorpece-te com estes ecos. Os muros são tua criação para deixar que só tu vejas a beleza das flores. São o egoísmo que criastes. E como punição, ouves apenas os ecos do Infinito, não o que Ele diz. Derruba estes muros! Mostre as flores ao mundo e ganharás mais do que a manifestação das falas da tua caverna. Entenderás a essência, a raiz, o começo o meio e o fim de tudo que te assombrou. Entenderás os teus medos, os medos alheios, a luz e a escuridão. E muito mais importante, fará a tua missão e o que esperamos de ti.

Universo Através de Mim

Uma das coisas mais fascinantes do Universo, é saber que independente dos segredos que ele oculte, há a certeza de que ele está consciente e refletindo sobre sua própria existência através de mim.

Ou seja, em meio a toda imensidão de estrelas que vejo à noite, mais tantos outros trilhões que não vejo, um pequeno ponto, uma mente, um agrupamento de poeira estelar, está consciente.

Entender a mim mesmo pode, portanto, ser uma tarefa tão difícil quanto entender o próprio Universo.

Mas olhar para as estrelas e em seguida para mim, entender que elas e eu somos feitos dos mesmos componentes, que outrora cada átomo que compõe cada célula, cada osso, cada fio de meu corpo, um dia pertenceu a uma estrela, dá a sensação de que posso entendê-las.

Se eu as tenho em mim e delas eu vim, qual a nossa diferença senão apenas nossa forma atual?

Será que aqueles átomos que geraram aquela luz que viajou toda a galáxia e hoje chega a meus olhos, um dia não formarão um outro ser consciente que olhará para cá e não terá a mesma sensação de pertencimento ou, por fim, a consciência do Universo que eu ainda não tive?

Será que meus átomos, quando eram parte de uma estrela, não geraram uma luz que viajou toda a galáxia e hoje está chegando aos olhos de outro ser consciente que está fazendo o mesmo questionamento olhando nesta direção?

As estrelas e eu somos um só. No passado, no presente e no futuro. Ambos estamos buscando a nossa compreensão. Talvez elas criem um outro ser que seja capaz de alcançá-la. Talvez eu alcance e não possa contar a elas quando elas olharem para cá. Talvez elas tenham me criado para alcançar. Talvez o espaço-tempo seja uma ilusão e as coisas não aconteçam, simplesmente sejam.

Se o Universo aqui me colocou, daqui devo buscá-lo.

Animae

Eu. Eu sou. Eu sou o começo em mim mesmo. Sou a força que é justificada em si. Sou a luz que ilumina. Sou o paradoxo e a verdade. E também a escuridão.

Sou a dúvida e a lucidez. A criação e o criador. Estou sozinho na companhia de tudo. Não consigo dormir, pois sou a insônia que sussurra quando apago a luz. Não consigo morrer, pois sou a morte que renasce quando durmo.

Sou o fim. Sou a escuridão. O último fóton viajando pelo Universo.

Sou também a vida. Sou a luz. O primeiro suspiro. O primeiro momento de lucidez.

O átomo e o Universo. O fim que me gerou. O apocalipse eterno e a transformação estagnada.

A destruição de tudo que é sagrado e a santificação do profano. Ou a profanação do sacrossanto?

Sou o tudo ou o nada? Se o nada é algo, o que o nada pensa que é? O nada tem consciência de que é nada? Se sou tudo e sou a dúvida, o nada é a certeza? Ou, talvez, simplesmente não haja certeza.