O Fim

No princípio, achei que eu fosse a escuridão. Depois, achei que eu fosse a luz. Em ti, joguei a culpa por todas as minhas dores e as frustrações com o mundo. Te culpei, te caluniei, te julguei e te condenei.

Hoje eu vejo que nunca fui a luz nem a escuridão, fui apenas humano em constante evolução. Assim como você. Talvez eu tenha errado muito mais justamente por não poder errar. Talvez eu tenha te machucado quando virei faca para mim e pressionei. Talvez.

O corte foi muito profundo e no escarlate das minhas mãos pude ver a sua dor.

A culpa não foi minha, a culpa não foi sua.

O fim chegou e a realidade cobrou seu preço. Espero que você e Deus me perdoem, mas mais do que isso, espero que eu consiga perdoar a mim mesmo.

Obrigado e desculpe-me.

Meu Nome

Mudei meu mundo por você.
Por amor, por compaixão, por amizade.
Dei minha vida pelo sonho, parceria e união.

Abri meu coração, derramei minhas lágrimas
Sangrei meu trabalho.
Você se afastou.
Você me afastou.

Esconde-se!
Por de trás do véu do orgulho,
para nunca pedir desculpas
Nunca ver quem eu sou.

Diga o meu nome.
Diga quem eu sou.
Não sou a Fonte que você há muito não tem.
Diga o que eu sou.
Não sou o fim, sou o caminho a ele
Diga meu nome
Não sou o final, sou o prólogo

Não peço palavras de gratidão, pois as palavras eu já domino.
Não peço dinheiro, pois ele logo vai.
Não peço o que não pode.
Não peço um escravo.

Peço uma companhia.
Peço alguém que queira voar comigo aos mais altos céus, nas noites estreladas, nas manhãs chuvosas, nas tardes ensolaradas, no frio do outono e no calor da primavera.

Diga meu nome.
Diga quem sou.
Caminhe ao meu lado, esteja comigo, não apenas me transforme em uma necessidade.

Um dia eu irei e sem mim você caminhará. A culpa e a saudade lhe consumirão e você sempre soube que poderia ter evitado.

Não é pelo meu nome.
Não é pela solidão.
Mas adiante, eu caminharei.

Não é uma ameaça,
é a Lei do Universo.

Diga meu nome.
Diga uma vez, mas não ache que é o suficiente.
Reconheça quem eu sou, mas não julgue que tudo resolveu.

Caminhe ao meu lado, mas não espere que eu reduza o passo.
Talvez seja tarde demais e não importe mais quem eu sou.
Talvez o destino já esteja selado e sua dor será maior.

Eu tentei.

Ao menos, quando eu me for, diga-me “adeus”.

E meu nome.

Orgulho

Nunca foi muito claro para mim o que acontecia com você, até que vi as pedras molhadas. O mesmo orgulho que te impediu de procurar A Fonte poderá ser aquele que me afastará definitivamente de você. Percebe? Acho que você nunca percebeu. Não posso te culpar, pois o véu que que te cega para o mundo é o mesmo que não te permite ver o espelho.

A Fonte machucou, mas daquela água você bebeu e para não querer se sujar com a lama empoçada às margens da Fonte, esperou que o curso do rio desviasse até você.

Ele nunca desviou.

Acreditou ser mais forte, mais puro, mais evoluído, porém jamais teve a humildade de deixar esse orgulho para lá e andar descalço.

Afasta-me lentamente.

Você se afasta de mim, iludido por uma teimosia e apego a uma imagem fantasiosa.

Espero que acorde enquanto eu esteja aqui, para que não seja tarde demais e seu coração sofrido não tenha que carregar mais uma culpa pelo resto da sua vida e além.

A Fantástica Fantasia

Tudo é uma fantasia se a realidade não faz sentido. Assim, seriam os nossos sonhos um vislumbre de como tudo poderia ter sido se não estivéssemos entorpecidos?

Entorpecidos pela busca eterna de uma felicidade externa. Uma alegria que depende dos outros e de como eles são para nós. Reconhecimento, amor, compaixão, amizade, empatia. Você sacrificaria a única coisa que é sua – e somente sua – para viver flutuando em um oceano que não é seu?

Um oceano onde é preciso estar na superfície para respirar. Boiando, olhando para o céu, sentindo as ondas sacudirem levemente o seu corpo, enquanto tudo que está abaixo não importa realmente. Nunca importou, pois não era algo realmente seu.

E agora?

Não há mais o que fazer. Não há mais o que ser dito. É uma épica que se aproxima do instrumental final. Gritou, mas não foi ouvido. Chorou, mas não choraram junto. O desespero toma conta conforme o fim se anuncia.

O fim onde ficará claro que tristeza e felicidade são faces diferentes da mesma moeda e tudo que sempre importou foi a verdade que Deus mostrou.

Deus é tímido. Deus não gosta de fazer discursos e explicar Sua obra. As respostas estão todas prontas da maneira mais perfeita que Ele, e somente Ele, poderia ter feito.

E assim, enquanto estivermos entorpecidos esperando encontrar uma felicidade máxima, perfeita e irretocável, em oceanos de terceiros, em fantasias onde somos o que não queremos ser, na esperança de um gesto empático de quem não tem empatia, estaremos fadados à nossa destruição.

Ecos

– Por que choras?

– Sinto-me só, Mestre.

– Como pode sentires só se aqui estou?

– Você não está aqui exatamente. Posso senti-la, mas não posso vê-la.

– E isso me torna menos presente?

– Sim, ao passo que não consigo ver tuas expressões, ver o que fazes por mim e nem me sentir confortado pela tua compreensão.

– Pois teu coração também não está visível, embora saiba que ali está e possa senti-lo.

– É diferente. Ainda me sinto só. Mestre, minha solidão seria um dos pesos que eu deva carregar? Ou talvez, uma escolha minha para poder me manter desconectado deste mundo quando assim necessário? Eu não gosto de me sentir só. Não parece ser algo que eu escolhi.

– Não te esqueças que teu “Eu” mais puro e superior é maior do que esse “eu” reduzido que aqui senta diante de mim e me questiona. Converso com um ser semiconsciente. Plenamente consciente, tua sensação e sentimentos poderiam ser outros.

– Mas se a maior parte do tempo eu estou nesse estado, semiconsciente, se minha vida é assim, o que posso fazer?

– Buscar a consciência maior! Com ela poderás ver tudo que está ao teu redor. Toda a luz e a todos que te rodeiam.

– E os medos em minha alma?

– Tu os verás e assim os compreenderá. É como alguém batendo na porta. Tu tens medo, mas assim que abrires a porta verás que se trata de apenas de um mensageiro lhe dando boas novas. Ou dizendo-lhe que tu fostes aceito na Universidade, algo que é bom, mas também lhe trará uma nova quantidade de trabalho.

“Veja, filho, os medos são inseguranças. Tua sensação de incompreensão persuadirá a vontade da alma de desistir da existência plena condicional. Tua compreensão revelará a verdadeira face dos fatos e a profundidade da energia que permeia cada átomo do teu corpo. A Verdade. A Verdade não é uma revelação escrita de um segredo de escola. A Verdade é simplesmente a pura existência. O simples e complexo ato de existir e ser. Teus sonhos todos são manifestações da tua alma gritando para te mostrar os teus medos. Precisas acordar nos teus sonhos para assim compreender. Precisas buscar a compreensão tua antes de mais nada. Precisa ser e estar. Precisa ser e sentir. A verdade só se manifestará assim.

Sempre tu me dizias que “tudo é energia”. Eis o momento de crer e pôr em prática. Eis a hora de buscar essa compreensão e revelar a tua verdadeira identidade.”

Um, de diversos diálogos que ele teve com sua Mestre e outros colegas. Diálogos que ecoavam em sua cabeça como um grito em uma caverna vazia, até serem totalmente absorvidos pelas paredes e se dissiparem no nada. São os ecos, entretanto, que acabavam revelando-se em certos momentos da vida e brotando na beira de um rio na forma de flor. Uma flor. Uma simples e pura flor, com suas pétalas violetas com bordas brancas. Molhada pelo orvalho e iluminada pelo sol. Uma flor que brotava pelos ecos e ali se manifestava.

Ele sabia, cada vez que olhava para aquela flor – não para uma em específica, mas para cada flor que na beira do rio nascia – que eram os ecos de sua Mestre que afloravam. Era uma beleza imensurável, porém, simultaneamente, a dolorosa verdade de saber: os ecos.

Ecos do Infinito

A compreensão nunca foi o forte dele. Seus pensamentos e sentimentos ecoavam nos muros que ele havia construído para se proteger. Eram muros sólidos em uma realidade onde o intocável, sadicamente, acaricia com a mão dourada enquanto sufoca com a mão negra.

“Como posso me sentir acompanhado quando tudo que vejo são muros? ” – Perguntava. A Mestre, não respondia. Evasiva, sorria e comentava sobre a beleza do céu acima de suas cabeças. Ele, às vezes aceitava. Outras vezes, deitava e chorava. Tudo era ruído.

Até que certa vez, sua Mestre entendeu que deveria responder, mesmo sem ele ter perguntado. A pergunta não veio, mas no olhar sabiam do que se tratava. Sentou ao lado das flores e assim disse:

– Estes muros são tua criação para tentar prender os ruídos da caverna que te recusas a ouvir. O Infinito quando tudo criou, produziu um som. O som, bate nestas paredes e volta a ti. Ouve este som em forma de eco, e não ouves as falas de tua caverna. Mesmeriza-te com a beleza das flores e entorpece-te com estes ecos. Os muros são tua criação para deixar que só tu vejas a beleza das flores. São o egoísmo que criastes. E como punição, ouves apenas os ecos do Infinito, não o que Ele diz. Derruba estes muros! Mostre as flores ao mundo e ganharás mais do que a manifestação das falas da tua caverna. Entenderás a essência, a raiz, o começo o meio e o fim de tudo que te assombrou. Entenderás os teus medos, os medos alheios, a luz e a escuridão. E muito mais importante, fará a tua missão e o que esperamos de ti.