A Pergunta Mais Difícil da Vida

A coisa que mais me assusta na vida é não saber o que eu sou. Por não saber o que eu sou, eu não sei quem eu sou e por não saber quem eu sou, não sei o que estou fazendo aqui e nem o meu propósito. Busco propósitos na vida, mas são coisas que eu criei, não coisas que não lembro de ter combinado com Deus. Essas coisas vêm de mim da mesma forma que as tuas vêm de ti. Por que elas são tão diferentes? Por que eu quero ser ouvido e você prefere ficar em silêncio? Por que você quer entrar no mar e eu dormir na sobra de uma árvore? Por que, entre tantas coisas que eu gosto de fazer, eu escolhi fazer isso?

Buscar as respostas dessas perguntas é como lutar para ir rio a cima até chegar na fonte, onde todas as questões serão esclarecidas. E a fonte é o problema, pois a fonte sou eu e eu não sei o que sou, quem sou, o que estou fazendo e nem o que sinto, apenas observo o que faço e penso sem conseguir compreender a origem mais profunda, seja ela uma consciência animal fruto do acaso aleatório do Universo seja ela uma criação de Deus.

Às vezes vejo um vazio em mim e grito para ver se alguém responde, mas tudo que ouço é um eco. Então deixo-me levar para dentro dessa caverna e estando lá percebo coisas que não conseguia perceber de fora, coisas que são minhas e somente minhas. Sentimentos, lembranças, sensações, experiências, desejos, medos, angústias, nostalgias, esperanças, vitórias e derrotas, impossíveis de serem compartilhadas com outras pessoas pois somente eu vivi aquilo, somente eu estive naquele ponto de vista.

A sensação de solidão é tão indescritível que não sei se é boa ou ruim, pois é maior que essas definições. E se as outras pessoas também forem consciências semelhantes à minha, também devem ter isso em algum lugar. Talvez não percebam, talvez nunca tentaram perceber. Talvez estejam anestesiadas com seus propósitos e suas missões.

Invejo-as.

Muito Cedo Para Ser o Tiozão Nostálgico?

Será que é muito cedo para eu dizer que não gosto do que o mundo se tornou? Eu sou um cara bastante nostálgico, é verdade, mas há mudanças que aconteceram que não me ajudam a esquecer o passado e deixar de tentar revivê-lo, mesmo sabendo que é impossível. Sinto falta de pequenas coisas, algumas subjetivas, mas a principal é a falta das pessoas. Uma dessas coisas é que não consigo superar o fato que todo mundo seguiu rumos distantes e de que pessoas legais com as quais eu tinha contato simplesmente desapareceram quando MSN e ICQ morreram. E a causa do crime talvez não seja só a morte das ferramentas, mas também a minha cumplicidade quando eu soube que isso estava acontecendo e não me importei. Em minha defesa, digo que eram outros tempos, a sensação de solidão e isolamento ainda não era algo tão presente assim em mim e eu precisava deixar tudo isso para lá e seguir um novo caminho.

O ponto aqui não é somente a existência desses comunicadores que deixaram de existir. Isso é apenas uma bandeira. O ponto é tudo que existia ao redor, todas as sensações e sentimentos que eu vivia. Até mesmo o fato de que enquanto eu estava no ICQ minha mãe estava viva preparando um almoço, de que eu estava conversando com meus amigos onde iríamos “fazer festa” no fim de semana, das preocupações que eu tinha serem bobagens de adolescente, tudo isso está relacionado.

O mundo parecia muito mais lento e mais simples. A Internet não era baseada em redes sociais e ainda era um refúgio com menos ódio e ataques pessoais. O anonimato era muito mais presente e isso dava mais liberdade às pessoas. Quem vê pensa que isso baixava a qualidade do conteúdo, mas é uma grande mentira, pois ninguém era o pica das galáxias com 987 milhões de seguidores que diziam “amém” a tudo que você dizia. No máximo você era um Mané da Silva escrevendo em um site. O conteúdo real era o chamariz. A gostosa não era ninguém se não oferecesse algo além de fotos da sua bela bunda. Ninguém era “influencer” de porra nenhuma.

A forma de interagir entre as pessoas era muito diferente também. Você podia conhecer novas pessoas e saber mais sobre quem você já conhecia sem ser estranho demais. Você podia entrar no ICQ e iniciar uma conversa com um qualquer da sua lista de contatos, alguém que você não conversava muito na vida real, que não seria tão esdrúxulo. Afinal, o objetivo da ferramenta era esse e quem estava ali estava disposto a isso. Imagino hoje o quão bizarro seria tentar trocar uma ideia sobre aleatoriedades com pessoas que eu tenho no Facebook mas que não converso na vida real há anos, décadas, ou que troquei 2 ou 3 frases durante toda a vida. Por que elas são meus “amigos no Facebook”, afinal?

Conheci muito sobre pessoas com as quais eu tinha muito pouco contato no “mundo real” graças a isso e que acabavam se soltando um pouco mais graças à distância da Internet, além de poderem pensar muito melhor no que iriam escrever e escreveram mais. Quem aguenta escrever “textões” no celular hoje em dia? Sentado diante de um teclado e monitor era muito mais habitual e comum. Longas conversas, de horas, sobre os mais variados assuntos. A possibilidade de poder conhecer uma menina primeiro pelas suas ideias, pela sua conversa e conhecimento para depois verificar outros fatores também não existe mais e as gerações mais novas não saberão como era. Descarta-se ou aprova-se uma pessoa em 1 ou 2 segundos nesses aplicativos de relacionamentos que se usam hoje em “smartphones”.

Os “smartphones” trouxeram coisas muito boas, mas também causaram outras tragédias. O fato de você estar sempre com uma câmera digital de qualidade excelente no seu bolso é incrível. Poder entrar em contato com facilidade com pessoas importantes com um custo muito baixo também é legal. Alguns aplicativos também são excelentes. Você precisa ir em algum lugar que nunca foi e não precisa se preocupar com o caminho, basta colocar no seu aplicativo de mapas que ele te guia. Previsão do tempo, tabela de campeonatos de futebol, acesso a informações em poucos segundos, acesso à sua conta bancária, possibilidade de ir em uma loja física e antes de fazer a compra verificar se você não está prestes a comprar uma desgraça ou um ótimo produto, e muitas outras coisas incríveis. A tragédia dos “smartphones” é puramente um ponto de vista em que as pessoas pararam de se importar com textos maiores e de descobrirem novas pessoas para terem doses rápidas e furiosas de memes e “zapzap” com conhecidos, além de você precisar ter mais um objeto relativamente grande para carregar com você e cuidar para não ser roubado. É uma tragédia pessoal, sei que ninguém se importa com isso. É um efeito colateral dos benefícios que ele trouxe. E mesmo que eu questione se valeu a pena ou não, não é algo que eu possa mudar. Acho que do ponto de vista da sociedade, no bem maior, sim, valeu a pena, o que também não invalida minhas críticas a respeito dos efeitos colaterais nocivos. E isso que nem falei no vício, nas pessoas que se encontram com outras e deixam de conversar com elas para ficarem verificando alguma coisa em redes sociais e o escambau, nem nos índices de ansiedade e depressão cada vez maiores.

Não sei. Acho que essas críticas dizem muito mais a respeito de mim do que daquilo que eu estou criticando.