Rei No Trem

Este texto faz parte da série “O Último Trem Para o Paraíso”. Clique aqui para ler todos textos em ordem cronológica.

Ouvi algumas pessoas falando que há um rei no trem. Em princípio eu não acreditei, pois imagino que a presença de um nobre seria notada de imediato e não através de rumores. Eis que diante da minha cabine, surge um homem, mais ou menos da minha idade, vestido com um terno preto e um chapéu. Na minha mesa, havia uma jarra de água com um copo. Pergunta-me se pode tomar um gole. Prontamente o sirvo e o convido a sentar-se. O homem agradece, senta, bebe toda água do copo e pergunta:

– Você é o rei?

– Quem? Eu? Eu não. Eu sou uma pessoa comum.

– Hum! Se você fosse o rei seria exatamente isso que diria!

– Por que um rei andaria nesse trem?

– Pelo destino do trem, ora…

– Mas ele não teria uma carruagem, uma comitiva, algo mais nobre para viajar do que esse trem?

– Teria. Mas nada disso daria a experiência que esse trem dá.

– Isso não tem sentido. Por que um rei abriria mão de todo seu conforto para andar nesse trem?

– Pela experiência. Pelo que esse trem é. Para quando estar entre outras realezas, poder gabar-se dessa experiência singular.

– As realezas se impressionariam com um rei andando de trem entre os plebeus?

– Veja… você tem uma imagem muito distorcida de reis. Reis são pessoas comuns, com os mesmos anseios de anônimos, mas com a pressão da opinião pública e da imagem imaculada que precisam passar. E sabe o que é mais curioso? É que em última instância, todos somos reis e súditos de nós mesmos. Nós temos uma verdade íntima e vil ao mesmo tempo que temos uma imagem de realeza para reverenciarmos. É o nosso consolo.

– O “eu” idealizado e o “eu” real…

– Tudo pode ser real. Aquilo que você pensa é real? A música que você ouve na sua cabeça somente passa a existir quando você a toca ou já existe na sua mente em forma de melodia?

– Acho que enquanto está na minha cabeça é somente um sonho, um delírio, não é nada real.

DarkSky

Sonho

– Mas o que são sonhos senão lapsos de uma realidade alternativa? Para muitos, sonhos são espelhos em um quarto escuro. Eles estão lá, imóveis, invisíveis e quando um pequeno raio de luz os atinge, revelam-se nos confundindo, mostrando a direção até eles e não a direção à origem da luz. Para outros, sonhos são tão reais quanto os delírios de um febril na madrugada. A experiência é uma mistura de realidade com ficção onde tudo é plausível e a razão nos sufoca para acordar. Se para algo ser real precisa de comprovação da realidade, então nada faz sentido uma vez que a realidade não pode ser justificada em si própria. Se para algo ser real precisa da verificação de um terceiro, que supostamente habita o que é a realidade, então voltamos ao mesmo dilema.

– Isso é muito confuso.

Olhou-me com uma expressão que parecia de decepção, mas que logo se transformou em um sorriso de afeto e compreensão, como um pai que olha para o filho pequeno fazendo algo engraçadinho e sem muito sentido.

– É… realmente.

Estendeu a mão, cumprimentou-me, disse que foi um prazer me conhecer e se retirou. Pensei comigo mesmo:

– Talvez o rei entendesse melhor o que ele quis me explicar.

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