Pela Noite Eterna

Este texto faz parte da série “O Último Trem Para o Paraíso”. Clique aqui para ler todos textos em ordem cronológica.

Adoro as noites e se pudesse ficaria acordado nelas para sempre, dormindo de dia quando a luz do Sol pode afastar os demônios de meus sonhos. Então, quando percebi que neste trem a noite era eterna, pude relaxar e me dar por satisfeito mesmo que ele nunca chegasse ao seu suposto destino.

Gosto da luz amarelada e fraca que ilumina o interior dos vagões. Imagino que se o Sol dormisse à noite, assumiria essa cor tênue e agradável.

Existem vários tipos de trens, vagões e assentos. Parece que o lugar em que estou seria para comportar mais viajantes. Quem está no corredor, de frente para a minha janela, vê uma espécie de cabine fechada com divisões até o teto na sua esquerda e na sua direita, com uma mesa no centro e lugares nas laterais cujos respectivos encostos são apoiados nessas divisões. A parte da frente, onde se tem acesso à cabine, é aberta. Imagino que esse tipo de lugar era utilizado por empresários fazerem reuniões enquanto viajavam ou mafiosos discutirem seus próximos planos.

Achei curioso que na estação de trem esse era o único trem com assentos vagos, pois pelo movimento que tenho observado há bastante espaço disponível.

Distraí-me nesses pensamentos enquanto observava a luz pálida refletindo na mesa, quando percebi alguém se aproximando e antes que eu pudesse reagir, sentando-se em minha frente:

– Nada do que passamos faz sentido se procuramos um sentido em explicações que não compreendemos.

Não entendi o que ele quis dizer. Fiquei alguns segundos em silêncio observando essa pessoa. Tratava-se de um homem com cerca de 40 anos, barba longa, com diversos fios grisalhos, cabelo comprido e uma blusa de moletom com capuz. Ele vestia o capuz, como quem estivesse tentando não ser visto.

– O que? Isso não faz sentido. – Respondi a ele, com espanto.

– Faz, faz… faz sentido. Mas é cedo para entendermos. Quem me disse jurou que fazia sentido e eu venho tentando entender isso desde então.

– Quem te disse isso?

– Não importa! – Respondeu com agressividade.

Pude perceber um leve odor de álcool. Talvez fosse apenas um bêbado vagando pelo trem e importunando as pessoas. Apesar disso, fiquei curioso sobre ele e sobre o que havia me dito.

– Então… Você procura uma explicação, um sentido, para as coisas que acontecem na sua vida?

– Sim. Todos procuramos. E às vezes, meu jovem, parece que quanto mais procuramos, menos entendemos.

Suspirou e continuou a falar, com bastante calma:

–  Nos esforçamos. Não para fazer o certo, mas para fazer o que faz sentido. Só que nós não sabemos o que faz sentido nem o motivo das coisas. Nos assustamos e ficamos com medo de acabarmos sem o que fizemos e sem sua razão.

Ficamos uns segundos em silêncio, olhei pela janela e observei algumas poucas estrelas por entre as nuvens, que pareciam estar ouvindo nossa conversa. Senti-me inspirado e repeti as palavras que os astros no céu haviam me dito através de seus brilhos:

– Então nós procuramos desesperadamente um sentido, uma razão. E por tanto que nos esforçamos, acabamos tendo a explicação que procurávamos. Só que ela também não é compreensível, assim como o fenômeno da vida. De certa forma… de certa forma você e eu somos crianças tentando entender física quântica lendo um manual em um idioma que não conhecemos.

Voltei o olhar para onde meu interlocutor estava.

Ele havia desaparecido.

CONTINUA…

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