Mãe Solteira – Parte 3: Trem Para O Paraíso

Décadas se passaram e nunca mais ouvi falar da minha filha. Cultivei uma solidão gigantesca, mas jamais a deixei de amar. Às vezes eu sonho com ela jogando fora o almoço que fiz com tanto carinho e esforço simplesmente porque não tinha tanto sal quanto ela gostaria, levantando-se da mesa e trancando-se no quarto.

Acordo em prantos, mas com saudades. Revivo tudo que fiz e penso se poderia fazer diferente.

Fui uma dentista de muito sucesso. Trabalhei muito. Nos primeiros vinte anos, tudo que ganhei foi para ela. Paguei-lhe faculdade, casa e carro, mas nunca tive amor. Tentei estar presente, tentei ouvir, mas ela nunca quis se abrir para mim. Tirei dias de folga para levar minha filha para conhecer os lugares que ela queria, para tentar me aproximar dela, para tentar conversar e tudo que recebi foi ingratidão e pouco caso.

Consegui juntar muito dinheiro ao longo da vida, mas de que isso adianta se ele não pode comprar empatia de minha filha?

Mas nunca desisti. E de certa forma, com a idade que estou, confesso a você que tudo faz sentido. É sombrio, meio negro, meio rústico, mas permeia minha alma e diz que a verdade que persegui pode nascer em mim. O amor da minha vida de fato nasceu naquele dia de outono, mas não estava nela, estava em mim.

Estou consolada por ter feito o que fiz. Hoje, aqui sentada nesse trem, ouvindo o barulho das rodas sobre os trilhos e observando a neve na escuridão da noite, posso finalmente estar em paz comigo mesma, com o meu silêncio, com minha verdadeira e pura solidão, saboreando algo que é meu e somente meu. Esta dor é minha e de mais ninguém.

Minha amada filha, não sei onde está hoje. Não sei o que passa em seu coração. Talvez eu tenha realmente errado por não ter me cortado como você queria e chorado em silêncio, mas eu ainda te amo. Sua ingratidão, indiferença e distância podem ser monstros que eu criei sem saber e por isso te peço desculpas.

O outono no parque já passou e nunca caminhamos juntas como sonhei no dia em que você nasceu. O inverno chegou, a neve veio e eu entrei nesse trem para o tal Paraíso. Não sei onde é nem o tempo de viagem. Não importa mais. Se não chegar lá, ao menos pude viver para te dar a vida e ter tido a oportunidade de te fazer me amar.

Obrigado por ter existido.

Para sempre, te amarei.

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