Mãe Solteira – Parte I: 1994

Nos conhecemos em 1989, graças a nossos irmãos mais novos, que eram coleguinhas de escola. Certa vez, houve uma dessas festas de criança na casa dele e eu fui buscar meu caçula. Na porta, o homem que seria o amor da minha vida. Ele não sabia que seriamos tão importantes um na vida do outro, mas eu sim.

Logo ele me convidou para sair e começamos a namorar. Foi tudo muito rápido e natural. Era o destino, era como deveria ser. Em pouco tempo, estávamos casados. Sempre conversamos sobre filhos, mas combinamos que primeiro eu concluiria minha faculdade de odontologia para depois pensarmos nisso.

Ele trabalhava de vendedor em uma empresa que fazia importação. Meu marido, além do seu talento, foi ajudado pelas mudanças na economia no fim da primeira metade dos anos 90, que colocaram nossa moeda em igualdade com o dólar, favorecendo demais as importações. Dinheiro não era um problema para nós. Eu já estava no último semestre do curso e então decidimos que era o momento de termos um filho. Se tudo desse certo, ele nasceria alguns meses após eu me formar e eu passaria o próximo ano cuidando dele e economizando para montar meu consultório.

Faltava cerca de quinze dias para nosso filho nascer. A negócios, meu marido precisava fazer uma viagem de cerca de dois dias para outra cidade. O médico disse que não havia chance de o bebê nascer nesse período.

Mas claro, a essa altura, você já sabe que ela, minha filha, nasceu justamente enquanto ele estava fora. A data foi sete de Abril de 1994, na primeira metade do outono. As folhas haviam começado a cair e eu adorava passear pelo parque perto da minha casa imaginando como seria bonito um dia poder estar ali com meu filho. E foi quando as contrações começaram, muito mais forte do que o normal. Um estranho no parque me ajudou, me levou para o hospital e ela, minha filha, pode vir a este mundo. Descobri no instante que a vi que ela era o verdadeiro amor da minha vida. Ele que me perdoe.

Para sempre a amaria e para sempre a amei.

Naquela época não havia celular. Tentei entrar em contato com meu marido para avisá-lo, mas no hotel fui informada que ele já havia saído. Deveria chegar no fim do dia da viagem. Mas nunca chegou. E nunca mais chegará. Nunca soube que ela havia nascido. E nunca saberá.

Eu e ela. Eu e o amor da minha vida. Sem emprego, sem renda. Agora, me via obrigada a trabalhar e cuidar dela ao mesmo tempo. Enquanto eu trabalhava como podia, minha querida mãe cuidava de sua neta.

Foi assim por um tempo, mas eu sabia que não seria para sempre. Poucos meses depois, o destino levou também a minha mãe. Meu pai já havia falecido muito antes de ver seu neto e meu irmão mais novo, já adulto, estava casado e morando no exterior. O tio dele, irmão do meu marido, era distante de nós e nunca se interessou muito pelo que acontecia com a família.

Virei mãe solteira. Mas mais do que mãe solteira, virei mãe solitária.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s