O Último Trem Para o Paraíso

Esse sentimento é meu e somente meu. Já tentei compartilhar, mas ninguém entende, ninguém o quer. Já tentei procurar a origem no que me rodeia, mas não a encontrei. É algo de mim e para mim.

Então, cansado, certa noite fiz as malas. Na verdade, uma mala. Bem pequena, com poucos e preciosos objetos nela: um caderno, uma caneta, uma pedra, meu amuleto, três mudas de roupa e uma certa quantia de dinheiro. Dirigi-me à estação de trem no centro e decidi pegar um trem. Era noite, muito frio, perto do Natal, e todos os trens já estavam lotados. Exceto um. E a passagem custava exatamente a quantia de dinheiro que eu tinha.

Disseram-me que era o último trem para o Paraíso e nele embarquei. Viajando por horas, dias e semanas em uma noite ártica de inverno, pude observar as estrelas, as pessoas e o frio. Em certo momento, o Frio passou a falar comigo, me explicando que ele é o estado natural do Universo e das coisas, que nele há a paz eterna e da sua relação com o Caos.

Nessa viagem sem fim pela noite eterna, perguntei-me sobre os outros trens ao Paraíso que eu havia deixado de pegar e o que estive fazendo enquanto eles passavam. Passariam eles pelo mesmo caminho? Poderia observar exatamente a mesma lua por trás do mesmo monte naquele ângulo perfeito que eu estava?

Então, certo dia, um sujeito totalmente vestido de preto, com um capuz que cobria rosto indistinguível perante a pouca luz, sentou-se à minha frente e como se soubesse da angústia que eu tinha, disse-me:

– Não há trem perdido se você não tem a passagem para nele entrar. Não há trem perdido se não há vaga para você nele.

Àquela altura, já sabia que nada era normal nessa viagem. Estando no último trem para o Paraíso, tudo é natural. A tristeza mais profunda, a alegria mais radiante e o ser misterioso que senta diante de mim. Questionei-o:

– Não peguei o trem muito tarde?

– Tudo o que fez até hoje te permitiu estar aqui. A viagem é longa, é bela. É preciso estar na escuridão para ver o brilho da Lua iluminando o monte.

Levantou-se e foi embora. Eu sei quem ele é e sei que voltará mais vezes. A viagem é longa, muito longa, mas não tenho pressa para chegar ao fim.

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