De Onde Você Veio

De onde você veio? É uma pergunta simples com respostas variadas. Pode-se dizer a cidade, pode-se descrever a família. Mas quero saber além disso. Quero saber o que te transformou nisso que você é hoje. Quero saber a jornada que você percorreu, saber tudo que desceu por esse rio até formar esse ser que hoje me lê.

Todas suas experiências de vida. As vitórias, as derrotas. As decepções, as alegrias. O prazer de cada momento ou a angústia desesperada por um final. Você é complexo. Você é um Universo em transformação cujo exato momento de sua criação, aquele instante em que você acordou e disse “eu existo” não pode ser apontado com exatidão. Então sua grandiosidade já começou a partir do momento que sua consciência passou a existir, assim como sua semelhança com o Universo. O momento do primeiro despertar, onde nem você mesmo sabe dizer quando foi exatamente ou como era antes. O seu big-bang.

Qual sua memória mais antiga? E qual sua primeira memória feliz? E sua primeira memória triste? E todas suas memórias ao longo da vida?

Você navegou muito até chegar até aqui e todo esse rio por onde você desceu é valioso. É único e te trouxe até aqui. Só há você desse jeito. Só você percorreu todo esse trajeto. Só você conhece suas cicatrizes e os vaga-lumes que precisou seguir como a única luz que você tinha.

E você não surgiu a partir do momento que ganhou consciência. Você veio surgindo ao longo de milhares de anos.

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Isso não surgiu do dia pra noite. Isso não surgiu por um ato único.

Não é autoajuda. É uma observação sobre algo que nos une: rios por onde navegamos.

E esses rios não são só nossos. São da história. São daquele sujeito olhando as estrelas 5000 A.C. que escreveu uma ideia que perdurou por milênios; São daquele sujeito peculiar que levou uma maçã na cabeça embaixo da árvore e entendeu tudo; São daquela que se sacrificou pelo que acreditava; São daquele que morreu na cruz; São daquele sentado sobre a lótus; São do anônimo que conduziu bem o ônibus com dezenas de outros anônimos. São de tudo e todos.

Se hoje você me lê, é graças a outros que construíram a história da humanidade e a história de nossas vidas, para podermos nos encontrar nesse momento, nessa época, através desse texto. E esse texto é atemporal. Você pode estar lendo ele décadas depois de eu ter deixado este mundo, se encontrando comigo pelas minhas palavras. Graças aos que me sucederam.

Por isso, deixo aqui minha gratidão eterna a todas as pessoas que ao longo de toda história tentaram contribuir para um mundo melhor fazendo bem o seu trabalho, seja ele qual for. Todas essas pessoas que indiretamente ou diretamente, permitiram que eu estivesse aqui, hoje, nesse momento, descendo por esse rio e tornando-me único.

Que nossos Universos brilhem e nos engrandeçam em nome do passado, para criar um presente forte e um futuro glorioso a todos aqueles que nos sucederem.

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Obrigado!

Fim do Mundo

Eu não tenho medo do fim do mundo. Tenho fascinação. A vertente de fim do mundo provocado por ação humana me desagrada, mas um meteoro, um super vulcão ou algo assim, me passa tranquilidade. Tranquilidade por saber que é algo totalmente fora do meu controle ou do controle de qualquer ser humano deste planeta. Está acima de tudo e todos. De todos egos, de todas vaidades. Todos se tornariam iguais automaticamente. É justo. É grandioso e acima de tudo, inevitável. É o nosso destino. O mundo, cedo ou tarde, acabará. Seja por um meteoro, um super vulcão ou pela expansão do sol daqui a bilhões de anos. É tão certo quanto a morte.

Algumas culturas celebram a morte. Eu, admiro o apocalipse. E por quê?

A humanidade por dentro

Quando criança eu já gostava de saber como as coisas funcionavam e também de ver seu interior. Mesmo brinquedos simples que não tinham nada de complexo eu desmontava para ver como eram. Tudo se torna interessante quando analisado parte a parte, de fora para dentro. Até mesmo uma bergamota me fascinava. Abro aspas para a criança eterna que habita meu coração, com seus 6 ou 7 anos de idade, poder se expressar:

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Bergamota. Foto: Ieda Beltrão

“É uma fruta parecida com uma laranja, mas com uma casca que não gruda com tanta força nos gomos. Lisa e brilhante por fora, rugosa e branca por dentro. Os gomos são unidos, mas não com tanta força, de forma que é possível separá-los com as próprias mãos sem rompê-los. E entre a casca e os gomos, há esse tipo de cola branca que não tem gosto. E cada gomo é constituído por uma espécie de pele fina, e dentro deles, outros pequenos gomos, onde o sabor de fato está. Alguns dos gomos grandes também têm sementes. E até a semente você pode ir dividindo em camadas. E qual o gosto da semente? Alguém já experimentou? Por que a bergamota é diferente da laranja? Por que há espécies diferentes de bergamotas? O que elas têm de diferente e por que, ao longo dos milhares de anos, elas ficaram assim? ”

Penso que essa fascinação pelo apocalipse se dá pelo fato de poder se desmontar a humanidade e assim vê-la por dentro. Destruiria todas as máscaras que criamos. O que realmente importa? Para o que realmente devemos viver? Quem são as pessoas cujas opiniões realmente são relevantes para nós? Seria o contato mais puro com a nossa essência coletiva. Vaidades, egos e aparências são totalmente irrelevantes nesse cenário.

E eu não acho que a humanidade seja ruim. Dissertar aqui sobre a origem da maldade aparente da humanidade é algo para uma série longa de textos. Mas, em síntese, eu acredito que todos colocados na mesma condição e despidos de suas fantasias, com aqueles que nunca sofreram fome sentindo em seus estômagos e almas o suco gástrico corroendo, com aqueles que sempre tiveram onde dormir sentindo o vento frio das madrugadas cortando seus olhos, haveria a chance de sentimentos de empatia e união seriam despertados. A maldade existiria, sim, mas o espírito coletivo de um mundo “apocaliptizando-se”, seria totalmente diferente do que temos hoje.

Pararíamos de gastar energias em futilidades e buscaríamos não só o que precisamos para sobreviver como animais, mas muitos, enfim, olhariam para suas almas e Deus.

E isso não é bonito?