Artistas de Deus

Meu pai é um artista. Minha mãe adorava escrever. Eu me considero um artista-escritor. Toda arte que produzo, tudo que escrevo, traz algum sentimento que captei ou vivi. Mesmo a minha trilogia “Mãe Solteira” traz uma série de elementos e analogias que remetem a sentimentos muito profundos que eu conheço e meu leitor poderá tentar decifrar.

Quanto mais eu mergulho nesse mundo, mais penso que o artista é um solitário. Mesmo rodeado de pessoas, a Bolha em que ele vive é a única certeza que há. E por mais que essa solidão pareça triste e deprimente aos olhos de terceiros, é algo tão grandioso e nobre que somente ele e Deus conhecem.

O artista se conecta tão profundamente com os sentimentos e emoções que é capaz de tocar almas com o que produz. Ninguém consegue tocar almas. Mas um texto, uma música, um quadro, um desenho, um filme, conseguem.

Foto 02 - Universo

“Universo” – Jolussa

E a pessoa que consome a obra se sente amparada, acompanhada, abraçada, compreendida. Há músicas que me fazem chorar. Há músicas que me fazem sorrir. Há músicas que me entendem. Como pode uma música me entender?

Quando você está sozinho, realmente sozinho, olha para si e talvez não consiga saber o que vê. Então uma obra de arte vem, te abraça e te explica o que está sendo visto. Descreve o sentimento de uma forma que ninguém jamais conseguiria. É um dos meios que Deus utiliza para falar conosco.

Deus é sutil e genial. Melhor falar com nós através de artista, que tocarão dezenas, centenas, milhares de almas, do que fazer desenhos em nuvens.

O artista é, portanto, o telefone de Deus com as almas deste mundo. Procure a arte que você gosta para saber que não está sozinho e o que Ele tem para dizer a você.

Música Para Sempre

A música é um dos elementos mais importantes da minha vida. Tenho um gosto musical muito chato e particular, por isso não gosto muito de falar em música em geral porque sempre as conversas acabam indo para bandas que eu não gosto (e que as pessoas acham que eu deveria gostar) e aí tenho que justificar porque não gosto e ouvir críticas.

Porém eu gosto, ou melhor, amo, falar somente sobre bandas e músicas que eu já conheço bem.

Ao longo da minha vida já tive várias bandas número um, mas a que mais está presente, provavelmente, é Dream Theater.

Conheci Dream Theater por volta de 2002. Algumas pessoas do meu círculo falavam dessa banda e de como ela era boa. Por curiosidade, fiz download de algumas músicas no Napster: Another Day e o cover de Confortably Numb.

Achei muito legal. Comecei a ouvir outras e pedir indicações a um amigo, que então me disse: “Ouça A Change Of Seasons, que se você gostar, gostará de todo o resto”.

Ouvi. E aqui estou eu, anos depois, dizendo que foi uma das bandas mais importantes na minha vida musical.

DtRio

Primeira vez que vi Dream Theater ao vivo: Rio, 2008

Dream Theater teve um papel muito importante em diversos aspectos que vocês nem imaginam, desde a frases inspiradoras, à companhia da música em momentos difíceis. Acredito que a música, a obra criada por Mike Portnoy, Kevin Moore, John Petrucci, James LaBrie, John Myung, Derek Shrenian, Mike Mangini, Jordan Rudess e Charlie Dominici, todos membros e ex-membros da banda, é uma das minhas melhores amigas.

Por isso, em tributo a tudo que a música representa em minha vida, em especial o Dream Theater, abro espaço no meu blog para tratar também desse assunto.

Espero que gostem e que passem a entender o quão importante isso é para mim.

 

A Bolha

Existe uma grande diferença entre a percepção que tenho de mim, a percepção que os outros têm de mim e a realidade. A realidade eu não sei qual é e a percepção que outros têm só existe para eles. Assim, levantei a hipótese de que estou vivendo em uma bolha. Tudo que está além dos limites da minha pele não faz parte de mim e compõe uma realidade diferente da minha. Como acredito em alma e espírito, nem mesmo este corpo que habito faz parte de mim realmente, sendo um invólucro temporário que utilizo para me locomover e interagir nesse mundo.

Conforme percebo que tenho ideias e pontos de vista que me distanciam da maioria das pessoas, essa bolha se torna mais definida e aumenta ainda mais o conflito entre as percepções externas e a realidade de dentro da bolha.

Sou uma essência, uma inteligência, uma alma aprisionada. Meu grande objetivo de vida deve ser fazer o que eu quero e o que eu quero é lançar palavras ao universo, permitindo que seres racionais as captem e as compreendam.

Convenci-me de que estou na bolha. Convenci-me de que estar só mesmo estando acompanhado é o estado mais puro, constante e real que posso alcançar.

Pessoas dizem que escrevo bem, mas sei que poucas leem e de fato se interessam pelo que escrevo e que essa ideia de que escrevo bem pode não ser real.

Entretanto, o que realmente importa, é o que escrevo ser lido por quem deve ler. Se não sou claro e dou margem a diversas interpretações, se tendo à escuridão com raros momentos de Sol e se gosto de ser assim, é o que basta.

Rei No Trem

Este texto faz parte da série “O Último Trem Para o Paraíso”. Clique aqui para ler todos textos em ordem cronológica.

Ouvi algumas pessoas falando que há um rei no trem. Em princípio eu não acreditei, pois imagino que a presença de um nobre seria notada de imediato e não através de rumores. Eis que diante da minha cabine, surge um homem, mais ou menos da minha idade, vestido com um terno preto e um chapéu. Na minha mesa, havia uma jarra de água com um copo. Pergunta-me se pode tomar um gole. Prontamente o sirvo e o convido a sentar-se. O homem agradece, senta, bebe toda água do copo e pergunta:

– Você é o rei?

– Quem? Eu? Eu não. Eu sou uma pessoa comum.

– Hum! Se você fosse o rei seria exatamente isso que diria!

– Por que um rei andaria nesse trem?

– Pelo destino do trem, ora…

– Mas ele não teria uma carruagem, uma comitiva, algo mais nobre para viajar do que esse trem?

– Teria. Mas nada disso daria a experiência que esse trem dá.

– Isso não tem sentido. Por que um rei abriria mão de todo seu conforto para andar nesse trem?

– Pela experiência. Pelo que esse trem é. Para quando estar entre outras realezas, poder gabar-se dessa experiência singular.

– As realezas se impressionariam com um rei andando de trem entre os plebeus?

– Veja… você tem uma imagem muito distorcida de reis. Reis são pessoas comuns, com os mesmos anseios de anônimos, mas com a pressão da opinião pública e da imagem imaculada que precisam passar. E sabe o que é mais curioso? É que em última instância, todos somos reis e súditos de nós mesmos. Nós temos uma verdade íntima e vil ao mesmo tempo que temos uma imagem de realeza para reverenciarmos. É o nosso consolo.

– O “eu” idealizado e o “eu” real…

– Tudo pode ser real. Aquilo que você pensa é real? A música que você ouve na sua cabeça somente passa a existir quando você a toca ou já existe na sua mente em forma de melodia?

– Acho que enquanto está na minha cabeça é somente um sonho, um delírio, não é nada real.

DarkSky

Sonho

– Mas o que são sonhos senão lapsos de uma realidade alternativa? Para muitos, sonhos são espelhos em um quarto escuro. Eles estão lá, imóveis, invisíveis e quando um pequeno raio de luz os atinge, revelam-se nos confundindo, mostrando a direção até eles e não a direção à origem da luz. Para outros, sonhos são tão reais quanto os delírios de um febril na madrugada. A experiência é uma mistura de realidade com ficção onde tudo é plausível e a razão nos sufoca para acordar. Se para algo ser real precisa de comprovação da realidade, então nada faz sentido uma vez que a realidade não pode ser justificada em si própria. Se para algo ser real precisa da verificação de um terceiro, que supostamente habita o que é a realidade, então voltamos ao mesmo dilema.

– Isso é muito confuso.

Olhou-me com uma expressão que parecia de decepção, mas que logo se transformou em um sorriso de afeto e compreensão, como um pai que olha para o filho pequeno fazendo algo engraçadinho e sem muito sentido.

– É… realmente.

Estendeu a mão, cumprimentou-me, disse que foi um prazer me conhecer e se retirou. Pensei comigo mesmo:

– Talvez o rei entendesse melhor o que ele quis me explicar.

Pela Noite Eterna

Este texto faz parte da série “O Último Trem Para o Paraíso”. Clique aqui para ler todos textos em ordem cronológica.

Adoro as noites e se pudesse ficaria acordado nelas para sempre, dormindo de dia quando a luz do Sol pode afastar os demônios de meus sonhos. Então, quando percebi que neste trem a noite era eterna, pude relaxar e me dar por satisfeito mesmo que ele nunca chegasse ao seu suposto destino.

Gosto da luz amarelada e fraca que ilumina o interior dos vagões. Imagino que se o Sol dormisse à noite, assumiria essa cor tênue e agradável.

Existem vários tipos de trens, vagões e assentos. Parece que o lugar em que estou seria para comportar mais viajantes. Quem está no corredor, de frente para a minha janela, vê uma espécie de cabine fechada com divisões até o teto na sua esquerda e na sua direita, com uma mesa no centro e lugares nas laterais cujos respectivos encostos são apoiados nessas divisões. A parte da frente, onde se tem acesso à cabine, é aberta. Imagino que esse tipo de lugar era utilizado por empresários fazerem reuniões enquanto viajavam ou mafiosos discutirem seus próximos planos.

Achei curioso que na estação de trem esse era o único trem com assentos vagos, pois pelo movimento que tenho observado há bastante espaço disponível.

Distraí-me nesses pensamentos enquanto observava a luz pálida refletindo na mesa, quando percebi alguém se aproximando e antes que eu pudesse reagir, sentando-se em minha frente:

– Nada do que passamos faz sentido se procuramos um sentido em explicações que não compreendemos.

Não entendi o que ele quis dizer. Fiquei alguns segundos em silêncio observando essa pessoa. Tratava-se de um homem com cerca de 40 anos, barba longa, com diversos fios grisalhos, cabelo comprido e uma blusa de moletom com capuz. Ele vestia o capuz, como quem estivesse tentando não ser visto.

– O que? Isso não faz sentido. – Respondi a ele, com espanto.

– Faz, faz… faz sentido. Mas é cedo para entendermos. Quem me disse jurou que fazia sentido e eu venho tentando entender isso desde então.

– Quem te disse isso?

– Não importa! – Respondeu com agressividade.

Pude perceber um leve odor de álcool. Talvez fosse apenas um bêbado vagando pelo trem e importunando as pessoas. Apesar disso, fiquei curioso sobre ele e sobre o que havia me dito.

– Então… Você procura uma explicação, um sentido, para as coisas que acontecem na sua vida?

– Sim. Todos procuramos. E às vezes, meu jovem, parece que quanto mais procuramos, menos entendemos.

Suspirou e continuou a falar, com bastante calma:

–  Nos esforçamos. Não para fazer o certo, mas para fazer o que faz sentido. Só que nós não sabemos o que faz sentido nem o motivo das coisas. Nos assustamos e ficamos com medo de acabarmos sem o que fizemos e sem sua razão.

Ficamos uns segundos em silêncio, olhei pela janela e observei algumas poucas estrelas por entre as nuvens, que pareciam estar ouvindo nossa conversa. Senti-me inspirado e repeti as palavras que os astros no céu haviam me dito através de seus brilhos:

– Então nós procuramos desesperadamente um sentido, uma razão. E por tanto que nos esforçamos, acabamos tendo a explicação que procurávamos. Só que ela também não é compreensível, assim como o fenômeno da vida. De certa forma… de certa forma você e eu somos crianças tentando entender física quântica lendo um manual em um idioma que não conhecemos.

Voltei o olhar para onde meu interlocutor estava.

Ele havia desaparecido.

CONTINUA…